Ontem consegui falar com um amigo de longa data. Mas ainda muito amigo. Sem muitas delongas pois estavamos no celular e sabe-se lá em que lugar do Brasil ele estava enviei-lhe os parabéns. E os Andes continuaram sua batalha contra a erosão elevando-se pouco mais. O tempo cizalha tudo o que é perene numa brincadeira de desvendar paradoxos. Paradoxos no entender esta posição tão tênue do que é permanente e do que é efêmero, passageiro.
Meu amigo respondeu como antes com um pano de fundo bordado por anos nas mãos precisas dos ponteiros. A perspectiva foi desenhada com tendências barrocas. O vinho envelhece e torna-se evidentemente o mesmo, deitado sobre a mesa com toda sabedoria. Mas cômico é perceber que algumas coisas permanecem isentas. Àquelas que caem em nossa distração podem subitamente ser ignoradas pelo constante desgaste geológico e ressurgir nas gengivas sorridentes de uma nova múmia descoberta no ártico. Vitoriosa por ludibriar o tempo e retornar muito prosa pelo feito mitológico onde um cadáver engana o tempo. Quem sabe este enganar passa antes por uma acordo ao invés de constituir um lapso de um fator que não pode assumir identidade, portanto não é capaz de esquecer.
O tempo não pode ser encarado como uma caricatura de um ente vivo. Pois não é vivo. Repito por horas a fio na tentativa de que o rosário me convença deste fato. Mas ainda o temo. Carcomendo minhas entranhas me vejo em uma meta-metáfora de um capitão gancho que corre do jacaré. Aliás, crocodilo. Os jacarés e crocodilos foram separados por eventos vicariantes (ou dispersionistas, como queriam) há muitos éons atrás. Os jacarés habitam a américa do sul enquanto crocodilos habitam espaços como américa do norte, ásia e áfrica. Também flertaram com o tempo por tanto tempo que se tornaram duas criaturas muito diferentes. Aquele que começou o romance já não existe mais, foi engolido pelo ontem, transmutado num eco plural: um com um sorriso alinhado e elegante enquanto o outro necessita urgentemente de um ortodontista.
Que o tempo traga a lista de coisas a não fazer. Isto porque as coisas que quero, estas não faço. Ecoa de um passado distante a frustração de Paulo em seu esmero de conversão perpétua. Eu baixei o telefone e lembrei do rosto sério do meu amigo, mas percebia um sorriso oculto. Muito provável ser o tempo. Rindo como o autor de uma novela, riscando a parede com a ponta de um prego, e a alma da gente com o que mais nos presta. Ou era um resquício de antigas tramóias de se revoltar contra o tempo estabelecendo o próprio compasso? Um espaço de tempo que revolve na alma, e alterna, como a matéria, entre poeira e saudades.
segunda-feira, 22 de dezembro de 2008
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